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Como a educação se tornou um campo de batalha nos EUA

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Robin Steenman leva uma caixa preta cheia de livros coloridos até a mesa da cozinha e tira alguns deles. As páginas são vasculhadas e marcadas com post-its. A pilha inclui títulos como Cavalo-marinho: o peixe mais tímido do mar, Separar nunca é igual: a luta de Sylvia Mendez e sua família pela dessegregação e A história de Ruby Bridges. Para Steenman, essas páginas são evidências de que o ensino falhou.

Ela é presidente do Moms for Liberty, (Mães pela Liberdade, em tradução livre), um grupo conservador que defende o direito dos pais de terem voz na educação dos filhos no Condado de Williamson, no estado do Tennessee. O grupo se opõe à forma como alguns livros estão sendo usados nas escolas públicas locais.

“As escolas não deveriam empurrar uma ideologia para meus filhos”, diz Steenman. “Devem ensiná-los efetivamente a ler, a escrever, a fazer cálculos e a entender ciências para que possam seguir em frente e ter sucesso na vida. Mas este currículo está mais focado em sua própria mensagem e em sua própria agenda do que em capacitar as crianças”.

O Moms for Liberty apresentou uma queixa oficial ao Departamento de Educação do Tennessee no final do ano passado, afirmando que os livros e material didático “revelam ensino antiamericano, antibranco e antimexicano explícito e implícito” e que apresentam “uma agenda fortemente tendenciosa, que faz com que as crianças odeiem seu país, umas às outras e/ou a si mesmas”.

A reclamação foi rejeitada. Mas o caso ressalta uma tendência crescente nos EUA, onde um movimento liderado por conservadores está reprimindo a educação e, em particular, o que as escolas ensinam às crianças. Ele mira em livros e materiais didáticos em todo o país e contesta a forma como racismo, gênero e sexualidade são abordados.

Escolas como campo de batalha

Isso coloca as salas de aula e bibliotecas mais uma vez na linha de frente das guerras culturais nos Estados Unidos.

De acordo com a Associação Americana de Bibliotecas, houve “729 objeções para materiais e serviços de bibliotecas, escolas e universidades em 2021, resultando em mais de 1.597 contestações ou remoções de livros individuais”.

É o maior número de tentativas de banimento de livros desde que a organização começou a contabilizar esse tipo de dado, em 2000. A maioria desses livros era de ou sobre pessoas negras ou LGBTQ+, disse a associação.

E isso ocorre mesmo após uma pesquisa da associação ter indicado que a maioria dos americanos, não importa de qual partido político, se opõe aos esforços para remover livros das bibliotecas públicas e escolares.

“[Proibir livros] é uma característica comum na história americana e, de certa forma, tem muito a ver com o tipo de contexto mais amplo das guerras culturais, que sempre fizeram parte da história americana”, afirma Andrew Hartman, professor de história na Illinois State University e autor de Uma Guerra pela Alma da América: Uma História das Guerras Culturais.

“Esse debate entre conservadores em grande parte religiosos e liberais em grande parte seculares remonta à década de 1920 de várias maneiras, mas realmente se intensificou desde a década de 1960 e os movimentos de libertação, direitos civis, feminismo, direitos dos gays”, explica.

Batalha não se limita aos EUA

Essa batalha pela censura não é nova e nem se limita aos EUA. Desde os nacional-socialistas da Alemanha, que proibiram e queimaram livros que consideravam degenerados, até os radicais da revolução cultural chinesa, que destruíram livros que não estavam de acordo com sua ideologia política, materiais de leitura e didáticos têm sido um alvo comum ao longo da história em todo o mundo.

No entanto, a atual onda de proibições de livros nos EUA parece ser mais politizada do que no passado, porque coloca os dois principais partidos políticos dos EUA ? Republicano e Democrata ? um contra o outro em um cenário político já profundamente polarizado.

“Transformou-se em republicanos que em grande parte apoiam os pais conservadores, brancos, religiosos ou evangélicos”, explica Hartman.

“E muitas vezes, os políticos republicanos são francamente oportunistas em conseguir apoio para si mesmos, para suas candidaturas… porque essas são questões que animam sua base”.

A atual reação contra livros e currículos se transformou em uma batalha nacional. Houve comícios e protestos da Virgínia à Califórnia, com grupos conservadores enfrentando conselhos escolares e funcionários da educação.

No ano passado, um professor de um condado do Tennessee foi demitido por se referir ao privilégio branco em suas aulas, porque a assembleia geral do estado havia proibido o que é conhecido como teoria racial crítica (CRT, na sigla em inglês) das escolas.

A CRT refere-se a um conceito acadêmico que se concentra em como o racismo é sistêmico, incorporado às políticas e leis locais. Os conservadores argumentam que a CRT é divisiva e promove uma autoimagem negativa em crianças brancas.

Muitos educadores argumentam que não há uma agenda de CRT nas escolas e que continuam ensinando os mesmos currículos há anos sem que antes ninguém se opusesse.

Enquanto isso, pais negros apontam que o racismo está frequentemente embutido nos sistemas que seus filhos têm que enfrentar.

Discussão vai além do racismo

No entanto, a controvérsia vai muito além da teoria racial crítica. Grupos conservadores também se opõem ao modo como as escolas estão ensinando gênero e sexualidade. Na Flórida, o governador do estado, membro do partido Republicano, fez com que as autoridades educacionais banissem livros didáticos de matemática por conteúdo julgado como inapropriado. Entre outras coisas, estavam referências a preconceito racial.

Um conselho escolar no Tennessee até votou para remover Maus, história em quadrinhos sobre o Holocausto vencedora do Prêmio Pulitzer, por considerar sua linguagem “grosseira e censurável”.

“Absolutamente a história deve ser ensinada, com defeitos e tudo. Mas apenas ensine história, sem agenda ou ideologia ou tentando colocar uma criança em uma caixa ou outra, porque a história tem suas próprias lições”, diz Steenman, do Moms for Liberty.

“Se você ler um livro sobre a história dos Estados Unidos, especialmente no que diz respeito à escravidão e à guerra civil, você sabe, me ensinaram isso quando criança e cheguei à conclusão de que isso era ruim. Nunca deve ser repetido. Mas eu nunca fui culpada por isso [pela guerra civil ou pela escravidão] quando era criança”.

Em defesa dos negros

Os cofundadores da One WillCo, organização que defende estudantes negros no mesmo condado do Tennessee que atua o Moms for Liberty, têm um contra-argumento para isso. Para eles, as queixas dos pais conservadores são injustificadas, uma vez que os alunos estão prosperando com o currículo atual e também aprendendo lições difíceis sobre raça e gênero.

“Tudo o que você precisa fazer é explicar para as crianças e elas entendem. Não damos crédito suficiente aos nossos filhos para lidar com as conversas que temos”, diz Revida Rahman, uma das cofundadoras da One WillCo, que é negra e tem filhos na rede pública de ensino.

“E, infelizmente, tenho que ter conversas difíceis com meus filhos regularmente para que eles saibam como são vistos, sobre como não podem fazer certas coisas, como não levar seus doces ao supermercado, pois podem ser acusados de tê-los roubado”.

Outra cofundadora da One WillCo, Jennifer Cortez argumenta que conceitos como CRT são pontos de discussão republicanos que não refletem o que realmente está sendo ensinado nas escolas. Sua filha, que é branca e estuda na rede pública, não desenvolveu uma autoimagem negativa. Para Cortez, é importante ver a história por uma lente inclusiva.

“Eu entendo a preocupação, mas, respeitosamente, essa é uma preocupação branca”, disse Cortez. “Tenho o luxo de não ter que pensar na cor da minha pele aqui onde moro e onde cresci, porque sempre foi uma vantagem ou algo não problemático. Mas para muitas crianças e muitas famílias esse não é esse o caso”, observa.

“Posso entender por que alguns pensam que isso é divisivo, porque parece desconfortável. Mas a verdade é que é melhor se pudermos falar sobre isso e aprender a falar sobre isso”.

Fonte G1 Brasília

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