Cerca de 400 pessoas constam como não identificadas no arquivo do Instituto Médico Legal (IML) de Mato Grosso, o que impede que famílias descubram o que de fato aconteceu com seus entes queridos. Sem saber quem são, elas seguem como desaparecidas. Porém, com a tecnologia e campanhas de divulgação, o instituto tenta reduzir esse número e dar um fim à angústia de familiares que esperam resposta.
Diante do alto número de não identificados, servidores do IML implementaram o projeto “Lembre de mim”, para descobrir quem são essas pessoas.

Simone Delgado, papiloscopista do IML e uma das idealizadoras da política pública aprovada pela Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec), conta que o instituto possui registro de cadáveres do ano 2000 que ainda não foram identificadas.
“Apenas em 2024, 1.146 corpos deram entrada aqui no IML. Desse total, 1.013 foram identificados pela necropapiloscopia, ou seja, pela análise das impressões digitais. Dentro dos métodos de identificação que o IML adota como protocolo estão a análise de impressão digital, exame de arcada dentária feito na antropologia forense, e o exame de DNA. Destes 3, a necropapiloscopia tem prevalência devido sua rapidez e o baixo custo”, explica a profissional.
Ela conta que a base do trabalho dos papiloscopistas é a impressão digital. O material do cadáver é recolhida e comparada em uma base de dados, porém, os técnicos sofrem com a dificuldade da integração deste com outros sistemas.
“Se a pessoa não possui registro civil aqui em Mato Grosso é uma limitação. Ela não está na base. Não tem como o sistema automatizado fazer essa correspondência se não tá cadastrado no sistema”, pontua.
Diante da dificuldade, o projeto nasceu em 2024, como forma de encontrar esses familiares e fazer com eles possam dar uma despedida digna aos seus entes queridos desaparecidos.
“Nos arquivos da Politec, nós temos inúmeros corpos sem identificação. Antes não era possível a gente fazer essas pesquisa com a tecnologia que temos hoje. Esse projeto é para recomeçar a busca e a pesquisa dessas vítimas que não foram identificadas nos anos anteriores, que já foram sepultados já como não identificados e os familiares não têm esse conhecimento”, explica Valter Ferrari, técnico em necropsia.

Inicialmente, é feito um levantamento dos arquivos físicos do IML, depois a catalogação, a digitalização e análise minuciosa, onde se pode encontrar, entre os vestígios papiloscópicos e evidências, um possível candidato. A segunda etapa é a pesquisa biométrica nos sistemas automatizados, com uso da tecnologia.
Já na terceira etapa é realizado uma colaboração interinstitucional, onde é feita buscas e pesquisas biomédicas em outros institutos de outros estados.
“Além disso, é procurado no sistema da Polícia Federal, na Secretaria de Segurança Pública e no Tribunal Superior Eleitoral, que inclusive é a maior base de dados biométricos da América Latina”, explica Simone.
Por fim, é realizado um confronto papiloscópico, em uma análise do especialista, feita a comparação das digitais da vítima e da base, emitindo a expedição do laudo oficial papiloscópico que é a prova técnica da identificação.
“Para muito além de identificar as vítimas, o nosso projeto abrange também a dignidade das famílias. Por isso, o nosso objetivo é localizar essas famílias e comunicá-las para elas terem o direito de saber o que aconteceu com seu familiar e também de prosseguir com os demais procedimentos, fazer uma certidão de óbito”, destaca a servidora.
Protocolado em novembro, o projeto começou em janeiro de 2025. Dentro desses quase dois meses, 64 casos foram levantados e 9 pessoas, falecidas entre 2012 a 2023, identificadas. Porém, apenas 3 famílias foram localizadas até o momento. Cerca de 400 pessoas ainda aguardam sua identificação.

Simone reforça que é importante que os familiares tenham seus dados atualizados nas bases de busca, pois a dificuldade de encontrar essas famílias parte dessa desatualização de endereço e telefone.
“É realizado uma busca ativa no sistema de informações para encontrar esse familiar. Porém, nós temos limitações, porque às vezes a pessoa não atualiza seus dados, não atualiza seu RG, e quando eles estão desatualizados, isso nos impede de localizar”, ressalta.
Em sua maioria, as vítimas não identificadas são de desaparecidos, por isso é importante que as pessoas comuniquem às autoridades locais o sumiço antes mesmo das 24 horas.
“Tem um relatório do comitê internacional da Cruz Vermelha, que abordar essa questão das pessoas desaparecidas, familiares de pessoas desaparecidas e eles concluíram que o desaparecimento traz impactos financeiros e emocional aos familiares. Isso impede a pessoa de ser feliz, porque fica com aquela dúvida constante. Então isso mostra como que o nosso trabalho impacta na vida. A gente trabalha com a morte, mas podemos transformar a vida das pessoas com esse projeto”, frisa.
Participam do projeto os papiloscopistas Alexandre Brasil, Simone Delgado e Andrea Oliveira, os técnicos Valter Ferrari, Lowrrayny Franchesca, André Talhari da Gerência de Identificação de Sinop, Andre Silva da Gerência de Plantão Integrado e Joselaine Duarte da Diretoria Metropolitana de Identificação Técnica.