A gestão do ministro Paulo Guedes à frente do Ministério da Economia chega ao fim em 20 dias, quando termina o governo Jair Bolsonaro (PL) e começa o governo do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Nesta sexta (9), Lula anunciou o desmembramento do Ministério da Economia e a recriação do Ministério da Fazenda. Essa pasta será comandada pelo ex-prefeito de São Paulo e ex-ministro da Educação Fernando Haddad (PT).
Guedes, de perfil liberal, começou o governo Bolsonaro com status de superministro e concentrou poderes.
Além da Fazenda, ele ficou responsável pela antigas pastas do Planejamento, da Indústria e Comércio Exterior e do Trabalho e Previdência. Posteriormente, a pasta do Trabalho e Previdência saiu de seu domínio.
Ficou conhecido como o “posto Ipiranga” de Bolsonaro, em referência à influência que tinha sobre o presidente.
A gestão de Guedes ficou conhecida pela defesa de um Estado enxuto, corte de gastos e embates com a área política do governo Bolsonaro.
Ele também ganhou as manchetes em razão de frases polêmicas. Relembre as principais:
Fies para o filho do porteiro
Em abril de 2021, Guedes classificou o Fies, programa de financiamento estudantil, como “bolsa para todo mundo” e “um desastre”.
“O porteiro do meu prédio virou pra mim e falou: ‘Eu tô muito preocupado’. Eu disse: ‘O que houve?’ Ele disse: ‘Meu filho passou na universidade’. Eu: ‘Ué, mas você não tá feliz por quê? Ele: ‘[Meu filho] tirou 0 na prova. Tirou 0 em todas as provas. Recebi um negócio financiado escrito ‘parabéns seu filho tirou…’ Aí tinha um espaço pra preencher… e lá 0. Seu filho tirou 0 e acaba de se ingressar na nossa escola. Estamos muito felizes.”
Dólar a R$ 5 ‘se eu fizer muita besteira’
Em março de 2020, quando o dólar chegou a R$ 4,60, Guedes afirmou que a moeda americana ultrapassaria os R$ 5 se ele fizesse “muita besteira”.
“Eu estou dizendo que é um câmbio que flutua, se eu fizer muita besteira, ele pode ir para esse nível [R$ 5]. Se eu fizer muita coisa certa, ele pode descer”.
A moeda bateu esse patamar no mês seguinte e, entre maio de 2020 e novembro deste ano, a média mensal da cotação só caiu abaixo dos R$ 5 em um único mês (maio de 2022).
Domésticas na Disney: ‘uma festa danada’
Em fevereiro de 2020, Guedes afirmou que o dólar baixo em governos anteriores fazia com que empregadas domésticas pudessem ir à Disney, nos Estados Unidos. E que, com o dólar mais alto, turistas viriam para o Brasil.
“”Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Vou exportar menos, substituição de importações, turismo, todo mundo indo para a Disneylândia. Empregada doméstica indo pra Disneylândia, uma festa danada”, criticou.
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‘Não adianta ficar sentado chorando’
Ao comentar um novo aumento nas contas de luz em 2021 motivado pela crise hídrica, Guedes disse que era preciso “enfrentar” o preço, e não “ficar sentado chorando”.
“Temos de enfrentar a crise. Vamos ter de subir a bandeira, a bandeira vai subir. Vou pedir aos governadores para não subir automaticamente [o ICMS da energia elétrica], eles acabam faturando em cima da crise. Temos de enfrentar, não adianta ficar sentado chorando”, declarou.
Banco do Brasil: ‘Vender essa porra logo’
Na fatídica reunião ministerial de 22 de abril de 2020, usada em uma troca de acusações entre Bolsonaro e o ex-ministro Sergio Moro, Paulo Guedes foi filmado fazendo duras críticas à gestão do Banco do Brasil.
“O senhor já notou que o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] e a Caixa, que são nossos, públicos, a gente faz o que a gente quer. Banco do Brasil, a gente não consegue fazer nada e tem um liberal lá. Então, tem que vender essa porra logo”, disse.
Jogos de azar: ‘Deixa cada um se foder’
Na mesma reunião, Guedes voltou ao vocabulário de baixo calão ao defender a liberação dos jogos de azar para estimular o turismo no Brasil.
“Aquilo [jogo de azar] não atrapalha ninguém. Deixa cada um se foder. Ô Damares. […] O presidente, o presidente fala em liberdade. Deixa cada um se foder do jeito que quiser. Principalmente se o cara é maior, vacinado e bilionário. Deixa o cara se foder, pô! Não tem … lá não entra nenhum, lá não entra nenhum brasileirinho. Não entra nenhum brasileirinho desprotegido. Entendeu?”, disse.
Ofensas à mulher de Macron
Em 2019, Guedes usou uma palestra em Fortaleza para defender as ofensas proferidas por Jair Bolsonaro à primeira-dama da França, Brigitte Macron. Para isso, repetiu os comentários machistas sobre a francesa.
“A preocupação é assim: xingaram a [Michele] Bachelet, xingaram a mulher do Macron , chamaram a mulher de feia. […] Tudo bem, é divertido, não tem problema nenhum. É tudo normal e é tudo verdade. Presidente falou mesmo, e é verdade mesmo, a mulher é feia mesmo [sorri, e a plateia ri e aplaude] . Não existe mulher feia, existe mulher observada do ângulo errado”.
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‘Tchutchuca é a mãe’
Em 2019, enquanto apresentava a proposta de Reforma da Previdência em uma audiência pública na Câmara, Guedes se envolveu em bate-boca com o deputado Zeca Dirceu (PT-PR) ? que chamou o ministro de “tigrão” em relação aos aposentados”, mas “tchutchuca” para a “turma mais privilegiada”.
Fora do microfone, Paulo Guedes se dirigiu a Zeca Dirceu e respondeu: “Você não falte com o respeito comigo. Tchutchuca é a mãe, tchutchuca é a vó”.
Funcionário público ‘parasita’
Guedes comparou funcionários públicos a “parasitas” ao defender, em 2020, a proposta do governo de reforma administrativa.
“O hospedeiro está morrendo, o cara virou um parasita, o dinheiro não chega no povo e ele quer aumento automático”, declarou.
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‘Não se assustem se alguém pedir o AI-5’
Em 2019, enquanto aliados do governo davam declarações insinuando uma eventual ruptura democrática, Guedes disse a jornalistas que “não se assustassem” caso alguém pedisse o AI-5 ? ato mais duro da ditadura brasileira que, em 1968, levou à censura e à tortura de opositores dos militares.
“É irresponsável chamar alguém pra rua agora pra fazer quebradeira. Pra dizer que tem que tomar o poder. Se você acredita numa democracia, quem acredita numa democracia espera vencer e ser eleito. Não chama ninguém pra quebrar nada na rua. Ou democracia é só quando o seu lado ganha? Quando o outro lado ganha, com dez meses você já chama todo mundo pra quebrar a rua? Que responsabilidade é essa? Não se assustem então se alguém pedir o AI-5. Já não aconteceu uma vez? Ou foi diferente?”, disse.
‘Vírus chinês’ e vacina menos efetiva
Em 2021, Guedes reuniu várias teorias da conspiração e fake news ao afirmar, em reunião do Conselho de Saúde Suplementar, que os chineses tinham inventado o vírus da Covid e que produziam vacinas menos efetivas que as dos laboratórios norte-americanos.
“O chinês inventou o vírus, e a vacina dele é menos efetiva do que a americana. O americano tem 100 anos de investimento em pesquisa. Então, os caras falam: ‘Qual é o vírus? É esse? Tá bom, decodifica’. Tá aqui a vacina da Pfizer. É melhor do que as outras”, disse.
Prato brasileiro x prato europeu
Em 2021, ao defender que alimentos desperdiçados fossem encaminhados a projetos sociais, Guedes comparou o almoço dos brasileiros, onde haveria “uma sobra enorme”, com o prato do europeu que “já enfrentou duas guerras mundiais”.
“Você vê um prato de um [cidadão] classe média europeu, que já enfrentou duas guerras mundiais, são pratos relativamente pequenos. E os nossos aqui, fazemos almoços onde às vezes há uma sobra enorme. E isso vai até o final, que é a refeição da classe média alta. Até lá, há excessos”, disse o ministro da Economia.
Acusações contra França e Bélgica
Em 2022, durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, Guedes acusou França e Bélgica de atuarem para retardar o ingresso do Brasil na OCDE, um “clube dos países ricos”.
“A Bélgica e a França ficam retardando o acesso do Brasil à OCDE porque são protecionistas com sua agricultura. Conversando com eles dissemos: ‘Nos aceitem antes que se tornem irrelevantes para nós'”, disse.
‘FMI tem de falar menos besteira’
Em outra viagem ao exterior, em outubro, Guedes atacou o Fundo Monetário Internacional (FMI) e disse que a instituição deveria “falar menos besteira”.
“Há seis meses, estava todo mundo dizendo que os brasileiros estão passando fome. Aí o FMI diz que o gasto podia ser menor. Isso que eu falo: o FMI tem que falar menos besteira e trabalhar um pouco mais pra alertar os americanos, os europeus.”
Ministro nega fome no Brasil
Sem apresentar dado contrário e em meio à campanha frustrada de reeleição de Jair Bolsonaro (PL), Guedes afirmou em setembro que era mentira o dado de que 33 milhões de pessoas passam fome no Brasil.
“33 milhões de pessoas passando fome é mentira. Nós estamos transferindo para os mais pobres, com o Auxílio Brasil, 1,5% do PIB, três vezes mais do que recebiam antes”, declarou.
‘Nós roubamos menos’
No mês seguinte, enquanto Lula e Bolsonaro disputavam o segundo turno presidencial, Guedes cometeu um ato falho ao dizer que o governo atual “rouba menos” que as gestões petistas.
“Eu, se fosse o Bolsonaro, diria: tudo o que o Lula fizer, eu faço mais. Por quê? Porque nós roubamos menos”, afirmou. E se corrigiu imediatamente em seguida: “Nós não roubamos”.
‘Cala a boca, vai trabalhar’, diz a Lula
Passado o segundo turno, Guedes atacou o presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao dizer que o político deveria “calar a boca” e “ir trabalhar”.
“Já ganhou, cala a boca, vai trabalhar, vai construir um negócio melhor, porque o desafio é grande”, disse.
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Fonte G1 Brasília